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CONTEÚDO

 

As fontes da doutrina Cristã.

 

A preocupação da Igreja com a pureza do ensinamento Cristão.

 

Dogmas.

As fontes dos Dogmas.

A Sagrada Escritura.

A Tradição sagrada.

A consciência católica da Igreja.

Dogmas e cânones.

Os trabalhos dos Santos Padres.

As verdades da fé nos ofícios Divinos.

 

Exposições dos ensinamentos Cristãos.

 

Os livros simbólicos.

 

Sistemas dogmáticos.

 

Teologia dogmática.

Dogmáticas e fé.

Teologia, Ciência e Filosofia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As Fontes da Doutrina Cristã

 

Introdução

 

A Preocupação da Igreja Com a Pureza do Ensinamento Cristão

Desde os primeiros dias de sua existência, a Santa Igreja de Cristo tem se preocupado sem cessar que seus filhos, seus membros, permaneçam firmes na pureza da fé.

"Não tenho maior gozo do que este: o de ouvir que os meus filhos andam na verdade" escreve o santo Apóstolo João, o Teólogo (3 João 4). "...escrevi abreviadamente, exortando e testificando que esta é a verdadeira graça de Deus, na qual estais firmes" (1 Pedro 5:12) diz o santo Apóstolo Pedro concluindo sua epístola católica. ("Católica" significado "universal," é o nome aplicado para as Epístolas do Novo Testamento (as de Tiago, Pedro, Judas e João) que foram endereçadas, não para indivíduos ou Igrejas locais (como são todas as Epístolas de São Paulo), mas para toda a Igreja ou para fiéis em geral).

O Santo Apóstolo Paulo relata a respeito de si próprio que, tendo pregado por quatorze anos, ele foi para Jerusalém, por revelação, com Barnabé e Tito, e lá ele ofereceu — especialmente para os cidadãos mais renomados — o evangelho que ele pregava, "para ele que de maneira alguma não corresse ou não tivesse corrido em vão." "Conduz-nos pelos Teus caminhos, a fim de que caminhemos em Tua Verdade," — é a primeira petição nas orações dos padres (orações que são lidas em silêncio pelo padre em frente às Portas Reais enquanto o Salmo 104 é cantado) durante o Primeiro Ofício do ciclo diário, Vésperas.

O verdadeiro caminho da fé que foi sempre cuidadosamente preservado na história da Igreja, é de há muito tempo chamado de direto, reto, em grego, orthos — isso é, "ortodoxia." No Saltério — do qual como nós sabemos da história nos divinos Ofícios Cristãos, a Igreja foi inseparável desde o primeiro momento de sua existência — nós achamos frases como as seguintes — "e tenho andado na Tua verdade" (Salmo 26:3); "Saia a minha sentença diante do Teu rosto" (Salmo 17:2); "aos retos convém o louvor" (Salmo 33:1); e existem outras. O Apóstolo Paulo instrui Timóteo a apresentar-se perante Deus "como obreiro que não tem do que se envergonhar, dividindo justamente a palavra da verdade (isto é, cortando justamente com um cinzel, do grego orthotomounta; 2 Tim 2:15). Na literatura Cristã dos primeiros tempos há uma constante menção a se manter a "regra da fé," a "regra da verdade." O próprio termo "ortodoxia" foi largamente usado mesmo na época anterior aos Concílios Ecumênicos, a seguir na terminologia dos próprios Concílios Ecumênicos, e nos Padres da Igreja tanto no Oriente quanto do Ocidente.

Lado a lado com o caminho direto, ou reto da fé sempre existiram aqueles que pensaram diferentemente heterodoxountes, ou "heterodoxos" na expressão de Santo Inácio, o Teóforo), uma palavra usada para maiores ou menores erros entre os Cristãos, é às vezes mesmo para sistemas completamente incorretos que tentaram explorar no meio dos Cristãos Ortodoxos. Como resultado da procura pela verdade, ocorreu divisões entre os Cristãos.

Tornando-nos familiarizados com a história da Igreja, e da mesma forma observando o mundo contemporâneo, vemos que os erros que guerrearam contra a Verdade Ortodoxa apareceram e aparecem a) sob a influência de outras religiões, b) sob a influência da filosofia, e c)através das fraquezas e inclinações da natureza humana decaída, que procura os direitos e justificativas dessas fraquezas e inclinações.

Os erros criam raízes e se tornam obstinados mais freqüentemente por conta do orgulho daqueles que os defendem, por causa do orgulho intelectual.

 

Dogmas

Assim para guardar o reto caminho da fé, a Igreja teve que forjar formas restritas para a expressão das verdades da fé: ela teve que construir as fortalezas da verdade para o repúdio de influências estranhas à Igreja. As definições da verdade, declaradas pela Igreja têm sido chamadas, desde os dias dos Apóstolos, dogmas. Nos Atos dos Apóstolos nós lemos sobre os Apóstolos Paulo e Timóteo que "quando iam passando pelas cidades, lhes entregavam, para serem observados, os decretos (Dogmas) que haviam sido estabelecidos pelos apóstolos e anciãos em Jerusalém" (At. 16:4; aqui a referência é para os decretos do Concílio Apostólico que é descrito no capítulo quinze dos Atos dos Apóstolos). Entre os antigos gregos e romanos a palavra dogmat era usada para se referir a a) conceitos filosóficos, e b) diretivas que deveriam ser precisamente atendidas. No entendimento Cristão, "Dogmas" são o oposto de "opiniões," que são concepções pessoais inconstantes.

 

As Fontes dos Dogmas

Em que são baseados os dogmas? É claro que os dogmas não são baseados nas concepções racionais de indivíduos separados, ainda que esses sejam Padres e Professores da Igreja, mas sim nos ensinamento das Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição Apostólica. A verdades da fé que estão contidas nas Sagradas Escrituras e na Sagrada Tradição Apostólica dão a totalidade do ensinamento que foi chamada pelos antigos Padres da Igreja de "fé católica," de "ensinamento católico" da Igreja. (Em tais frases a palavra "católica" significa "universal," referindo-se à Igreja de todos os tempos, povo e lugares, "onde não há grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre, mas Cristo é tudo em todos" (Col 3:11). Uma célebre definição de "católica" na Igreja dos primeiros tempos foi dada por São Vicente de Lerins, o Padre monástico da Gália no século quinto, que em seu Communitorium disse: "Todo cuidado deve ser tomado para mantermos firmes aquilo que foi creditado em todos os lugares, sempre e por todos. Isso é verdadeiramente e propriamente "católico" como indicação pela força e etimologia da palavra em si que compreende tudo que é verdadeiramente universal" (capítulo 2, Fathers of the Church edition, p. 270). O nome de "católica" foi mantido desde os primeiros tempos na Igreja "católica romana," mas os ensinamentos da Igreja do início foram preservados na Igreja Ortodoxa, que mesmo até os dias de hoje pode ser e ainda é chamada de "católica" em muitos lugares desse livro, Padre Michael estará contrastando os ensinamentos do Catolicismo Romano com aqueles da verdadeira Igreja católica ou Ortodoxa). As verdades da Escritura e Tradição, harmoniosamente fundidas em um único todo, definem a "consciência católica" da Igreja, uma consciência que é guiada pelo Espírito Santo.

 

Sagrada Escritura

Por "Sagrada Escritura" entende-se os livros escritos pelos santos Profetas e Apóstolos sob a ação do Espírito Santo; assim eles são chamados de "divinamente inspirados." Eles são divididos em livros do Velho Testamento e livros do Novo Testamento.

A Igreja reconhece 39 livros do Velho Testamento segundo o exemplo da Igreja do Velho Testamento (Apesar da Igreja no estrito senso ter sido estabelecida somente com a vinda de Cristo (ver Mt. 16:18), existiu num certo sentido uma "Igreja" também no Velho Testamento, composta por todos aqueles que olhavam com esperança para a vinda do Messias. Depois da morte de Cristo na Cruz, quando ele desceu ao inferno e ". ..pregou aos espíritos em prisão" (1 Pe 3:19), Ele levou para cima os justos do Velho Testamento com Ele para o Paraíso, e nesse dia a Igreja Ortodoxa celebra os dias de festa dos Santos Pais do Velho Testamento, dos Patriarcas e dos profetas igual celebra os dias de festa dos santos no Novo Testamento), muitos nesses livros são reunidos para formar um só, fazendo o número cair para vinte e dois livros, de acordo com o número de letras do alfabeto hebreu.

Os 22 livros "canônicos" do Velho Testamento são:

1. Gênesis, 2. Êxodo, 3. Levítico, 4. Números, 5. Deuteronômio, 6. Josué, 7. Juízes e Ruth, considerado como um só, 8. Primeiro e Segundos Reis (chamados de primeiro e segundo Samuel na versão de King James),9. Terceiro e Quarto Reis (Primeiro e Segundo Reis na versão de King James) 10. Primeiro e Segundo Paralipômenos (Primeira e segunda Crônicas na versão de King James), 11. Primeiro Esdras e Neemias, 12. Ester, 13. Jô, 14. Salmos, 15.Provérbios, 16. Eclesiastes, 17. Cantares de Salomão, 18.Isaias, 19. Jeremias, 20. Ezequiel, 21. Daniel, 22. Os Doze Profetas (Oséias, Joel, Amos, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias).

Esta é a lista dada por São João Damasceno na Exact Exposition of the Christian faith, p 375. Esses livros, que entraram em algum tempo no cânon hebreu, são chamados de "canônicos" (A palavra "canônico" aqui tem um significado específico com referência aos livros das Escrituras e assim deve ser distinguido do uso mais usual da palavra na Igreja Ortodoxa, onde ela não se refere ao "cânon" da Escritura, mas sim aos "cânones" ou leis proclamadas nos Concílios da Igreja. Nesse sentido, "canônico" significa somente "incluído no canon hebreu" e "não canônico" significa somente "não incluído no cânon hebreu" (mas ainda aceito pela Igreja como Escritura).

No mundo Protestante os livros "não canônicos" do velho Testamento são normalmente chamados de "Apócrifos," freqüentemente com uma conotação pejorativa, ainda que eles tenham sido incluídos nas primeiras impressões da versão de King James, e uma lei de 1615 na Inglaterra até mesmo proibiu que as Escrituras fossem impressas sem esses livros.

Na Igreja Católica Romana desde o século XVI os livros não-canônicos tem sido chamados de "Deuterocanônico" — isto é — pertencendo a um "segundo" ou tardio cânon da Escritura. Na maioria das traduções da Bíblia que incluem os livros "não-canônicos," eles são colocados juntos dos livros canônicos; mas em impressões antigas em países ortodoxos não há distinção entre livros canônicos e não canônicos, veja-se por exemplo a Bíblia Eslavônica impressa em São Petesburgo em 1904, e aprovada pelo Santo Sínodo). A eles são juntados um grupo de livros "não-canônicos" — isto é, aqueles que não foram incluídos no cânon hebreu porque eles foram escritos após o fechamento do cânon dos Livros Sagrados do Velho Testamento. (Os livros "não-canônicos" do Velho Testamento aceitos pela Igreja Ortodoxa são aqueles da "septuaginta" — a tradução grega do Velho Testamento feita pelos "setenta" eruditos que, de acordo com a tradição foram enviados de Jerusalém para o Egito atendendo a pedido do rei egípcio Ptolomeu II no terceiro século A.C. para traduzir o Velho Testamento grego. Os originais hebreus da maioria dos livros, e a maioria dos livros foram compostos somente nos últimos séculos antes de Cristo. Os livros "não-canônicos" do Velho Testamento: Tobias, Judith, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico ou a Sabedoria de Josué o filho de Sirach, Baruch, três livros dos Macabeus, a Epístola de Jeremias, Salmo 151, e as adições aos Livros de Ester, de duas Crônicas (a Oração de Manasses), e de Daniel (a Canção dos Três Meninos, Suzana e Bel e o Dragão) A Igreja aceita esses livros mais tardios como úteis e instrutivos e antigamente indicava-os para leitura instrutiva não só nos lares mas também nas Igrejas, por isso é que eles foram chamados de "Eclesiásticos." A Igreja inclui esses livros num só volume junto com os livros canônicos. Como uma fonte de ensinamento na fé, a Igreja os coloca em posição secundária e olha-os como um apêndice aos livros canônicos. Alguns deles estão tão perto em mérito dos livros devidamente inspirados que, por exemplo no 85º cânon apostólico (os Cânones Apostólicos, dos Santos Apóstolos são uma coleção de 85 cânone Eclesiásticos ou leis vindas dos Apóstolos e seus sucessores e aos quais foi dada a provação oficial pela Igreja no Concílio de Quinsexto, em Trullo em 692, e no primeiro cânon do Sétimo Concílio (787). Alguns desses cânone foram citados e aprovados em Concílios Ecumênicos a começar pelo Primeiro Concílio em 325, mas a coleção completa de todos os cânone juntos provavelmente não foi completada antes do 4º século. O nome apostólico não necessariamente significa que todos os cânone ou a coleção deles foram feitas pelos próprios Apóstolos, mas somente que eles estão de acordo com a tradição legada pelos Apóstolos (assim como nem todos os "Salmos de Davi" foram na verdade escrito pelo profeta Davi). Para o texto dos 85 cânones (ver Eerdemans Seven Ecumenical Councils, p. 594-600). O cânon Apostólico nº 85 lista os livros canônicos do Velho e Novo Testamento). Os três livros de Macabeus e o livro de Josué o filho de Sirach são listados juntos com os livros canônicos, e, a respeito de todos eles juntos, é dito que são "veneráveis e santos." No entanto, isso só significa que eles eram respeitados na Igreja antiga; mas uma distinção entre os livros canônicos e os não-canônicos do Antigo Testamento foi sempre mantida na Igreja.

A Igreja reconhece 27 livros canônicos do Novo Testamento. (Esses livros são: os 4 Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João; os Atos dos Apóstolos; as Sete Epístolas Católicas (uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas); catorze Epístolas do Apóstolo Paulo (Romanos, Primeira e Segunda aos Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossensses, Primeira e Segunda Tessalônica, Primeira e Segunda Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus); e o Apocalipse (Revelação) de São João Teólogo e Evangelista). Como os livros sagrados do Novo Testamento foram escritos em vários anos da era apostólica e foram enviados pelos Apóstolos para vários pontos da Europa e Ásia, e alguns deles não tiveram uma designação refinada para nenhum lugar específico, o ajuntamento deles em uma única coleção ou código não poderia ser um assunto fácil; foi necessário manter uma vigilância estrita entre os livros de origem apostólica pois poderia haver entre eles alguns dos assim chamados livros "apócrifos," que em sua maior parte foram compostos em ciclos heréticos. Por isso, os padres e professores da Igreja, durante os primeiros séculos do Cristianismo mantiveram uma precaução especial em distinguir esses livros ainda que eles portassem o nome dos Apóstolos. Os padres da Igreja freqüentemente introduziram certos livros em suas listas com reservas, com incertezas e dúvidas, ou ainda por essa razão deram uma lista incompleta dos Livros Sagrados. Isso foi inevitável e serve como memorial para essa precaução excepcional nesse assunto santo. Eles não confiaram em si próprios mas esperaram pela voz universal da Igreja. O Concílio de Cartago que foi local, em 318, em seu cânon 33, enumera todos os livros do Novo Testamento sem exceção.

Santo Atanásio, o Grande nomeia todos os livros do Novo Testamento sem a mínima dúvida ou distinção, e em uma das suas obras ele concluiu sua lista com as seguintes palavras:" Prestem atenção no número dos livros canônicos do Novo Testamento. Eles são, como foram, o começo, as ancoras e pilares da nossa fé, porque eles foram escritos pelos próprios Apóstolos de Cristo, o Salvador que estiveram com Ele e por Ele foram instruídos (da Synopsis de Santo Atanásio). Da mesma forma São Cirilo de Jerusalém também enumera os livros do Novo Testamento sem o mais leve reparo ou qualquer tipo de distinção entre eles na Igreja. A mesma lista completa encontrada entre os escritores eclesiásticos ocidentais, por exemplo Santo Agostinho. Assim, o cânon completo dos livros do Novo Testamento da Sagrada Escritura foi confirmado pela voz católica da Igreja toda. Essa Sagrada Escritura, na expressão de São João Damasceno, é o "Paraíso Divino" (Exact Exposition of the Ortodox Faith, Livro 4, Cap 17, Eng. Tr. p. 374).

 

Tradição Sagrada

No significado original preciso da palavra, Tradição Sagrada é a tradição que vem da antiga Igreja dos tempos Apostólicos. Do segundo ao quarto século isso foi chamado de "A Tradição Apostólica."

Deve-se ter em mente que a Igreja primitiva guardava cuidadosamente a vida interior da Igreja daqueles que estavam fora delas; seus Santos Mistérios eram secretos, mantidos fora dos conhecimentos dos não-cristãos. Quando esses Santos Mistérios eram realizados — Batismo ou a Eucaristia — aqueles que não eram da Igreja não estavam presentes; a ordem dos ofícios não era escrita mas só transmitida oralmente; e no que era preservada em segredo estava contido o lado essencial da fé. São Cirilo de Jerusalém (4º século) nos apresenta isso de maneira especialmente clara. A respeito de instruções Cristãs para aqueles que ainda não tinham expressado a decisão final de se tornarem Cristãos, o hierarca precede ensinamentos com as seguintes palavras: "Quando o ensinamento catequético é pronunciado, se um catecúmeno te perguntar, ‘O que o instrutor disse?’ tu não deves repetir nada para aqueles que estão sem (Igreja). Pois nós estamos te dando um mistério e esperança da era futura. Mantenha o Mistério Daquele que é o doador de recompensa, que ninguém diga a ti ‘Qual é o mal se nós descobrimos também?’ Pessoas doentes também pedem por vinho, mas se lhes for dado na hora errada ele produz desordem na mente, e existem duas conseqüências malignas; o doente morre e o médico é difamado" (Prologue to the Catechetical Lectures, cap. 12).

Em uma de suas homilias seguintes São Cirilo de novo observa: "Incluímos o ensinamento completo da fé em poucas linhas, E eu desejaria que vocês lembrassem dele palavra por palavra e deveriam repeti-lo entre vocês com todo fervor, sem escrevê-lo em papel, mas anotando-o por memória no coração. E vocês deveriam precaver-se pelo menos durante o tempo de vossa ocupação com esses estudos para que nenhum dos catecúmenos venha a ouvir aquilo que foi passado para vocês" (Fifth Catechetical Lecture, ch. 12). Nas palavras introdutórias que ele escreveu para aqueles que iriam ser "iluminados" — isto é, aqueles que já estavam para o batismo — e também para aqueles prestes que eram batizados, ele dá o seguinte aviso: "Esta instrução para aqueles que estão sendo iluminados é oferecida para ser lida por aqueles que estão vindo para o Batismo, e também pelos fiéis que já receberam o batismo; mas de modo nenhum não a dêem nem para catecúmenos nem para qualquer outro que ainda não se tornara Cristão, senão terão que responder ao Senhor. E se vocês fizerem cópia dessa leitura catequética, então, como diante do Senhor, copie isso também" (isso é, o aviso).(fim do Prologue para Catechetical Lectures). (Essas três citações são encontradas nas Catechetical Lectures, Eerdmans ed. pes. 4, 32, 5. Esse rigor com respeito a revelação dos Mistérios Cristãos (Sacramentos) para estranhos a Igreja não é mais preservada em tal nível na Igreja Ortodoxa. A exclamação "Retirai-vos catecúmenos!" antes da Liturgia dos fiéis ainda é proclamada, é verdade, mas dificilmente em qualquer lugar do mundo ortodoxo os catecúmenos ou não ortodoxos são instruídos a deixar a Igreja nesse instante. (Em algumas Igrejas eles são somente solicitados a ficar no fim da Igreja, no nartex, mais ainda porém observar o ofício). O ponto fulcral dessa ação perdeu-se no nosso tempo, quando todos os "segredos" dos Mistérios Cristão estão prontamente disponíveis para quem consegue ler, e o texto de São Cirilo Catechetical Lectures foi publicado em muitas línguas e edições. No entanto, a grande reverência que a Igreja antiga mostrava pelos Mistérios Cristãos, preservando-os cuidadosamente do olhar daqueles que eram meramente curiosos, ou daqueles que, sendo de fora da Igreja e, descompromissados com o Cristianismo, poderiam interpretar mal ou desconfiar deles — é ainda mantida pelos Cristãos Ortodoxos de hoje em dia, que ainda são sérios acerca de sua fé, mesmo hoje em dia não devemos "dá pérolas aos porcos" — falar muito dos Mistérios da Fé Ortodoxa para aqueles que são só curiosos sobre eles mas que não procuram juntar-se a Igreja).

Nas palavras que se seguem São Basílio, o Grande dá-nos um claro entendimento da Sagrada Tradição Apostólica: "Dos dogmas e sermões preservados na Igreja, alguns nós temos por instrução escrita, e alguns nós recebemos da Tradição Apostólica, passados em segredo. Tanto um quanto outro tem a mesma autoridade para a piedade e ninguém ainda que seja o menos informado nos decretos da Igreja contradirá isso. Pois se nós ousarmos subverter os costumes não escritos como se eles não tivessem grande importância, nós estaremos assim fazendo imperceptivelmente mal aos Evangelhos em seus pontos mais importantes. E ainda mais, nós seremos deixados como o nome vazio na pregação Apostólica sem conteúdo. Por exemplo, prestemos atenção especialmente na primeira e mais comum das coisas que aqueles que esperam no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo devem se assinalar com o Sinal da Cruz. Quem ensinou isso nas Escrituras? Que Escrituras instrui-nos a rezar voltados para o leste? Qual dos santos nos deixou em forma escrita, as palavras da invocação durante a transformação do pão da Eucaristia e a benção do Cálice? Pois não estando satisfeitos com as palavras que são mencionadas nas Epístolas e Evangelhos, mas antes e depois delas nos pronunciamos que também tem uma grande autoridade para o Mistério, tendo-as recebido por ensinamento não escrito. Por qual Escritura, da mesma forma, abençoamos a água do Batismo e o óleo da unção? Não é isso a silenciosa e secreta tradição? E o que mais? Que palavra escrita nos ensinou essa unção com óleo? (Isso é, a unção daqueles que estão sendo batizados; a unção do Sacramento da Unção, de outro lado, é claramente indicado nas Escrituras (Tess 5:14)) Aonde é encontrada a tripla imersão e todo o resto que tem a ver com o Batismo, a renúncia a Satanás e seus anjos? De que Escrituras são tomadas? Não é desse ensinamento não publicado e não falado que nossos padres preservaram em silêncio inacessível a curiosidade e escrutínio, porque eles foram inteiramente instruídos a preservar em silêncio a santidade dos Mistérios? Que propriedade teria proclamar por escrito um ensinamento referente aquilo que não é permitido para os não batizados sequer contemplar?" (On The Holy Espirit, cap. 27).

Dessas palavras de São Basílio, o Grande devemos concluir: primeiro, que a sagrada tradição do ensinamento da fé é aquela que pode ser rasteada até o período mais antigo da Igreja, e segundo, que tenha sido cuidadosamente preservada e unanimemente reconhecida entre os padres e professores durante a época dos grandes padres e o início dos Concílios Ecumênicos.

Apesar de São Basílio ter dado uma série de exemplos da "tradição oral," ele próprio nesse mesmo texto deu passos na direção de "gravar" essas palavras orais. Durante a era de liberdade e no triunfo da Igreja no quarto século, quase toda tradição em geral recebeu uma forma escrita e está agora preservada na literatura da Igreja, e que resulta num suplemento da Sagrada Escritura.

Nós encontramos essa antiga sagrada Tradição:

  • No mais antigo texto da Igreja, os cânones dos Santos Apóstolos;

  • Nos símbolos da fé (Credo) das antigas Igrejas locais;

  • Nos antigos Atos dos mártires Cristãos. Os Atos dos mártires não entravam em uso pelos fiéis até que eles tivessem sido examinados e aprovados pelos bispos locais; e eram lidos em reuniões públicas de Cristãos sob a supervisão dos líderes das Igrejas. Neles nós vemos a confissão da Santíssima Trindade, a Divindade do Senhor Jesus Cristo, exemplos de invocação de santos, a crença na vida consciente daqueles que haviam repousado em Cristo, e muito mais;

  • Nos registros antigos da história da Igreja especialmente no livro de Eusébio Pamphilo, Bispo de Cesareia (Tradução inglesa: Eusebius: The History of Church from Christ to Constantine, tradução por G. A. William, Peguin Books, Baltimore, 1965) onde estão reunidas muitas tradições antigas de rito e dogma — em particular, ali é dado o cânon dos livros sagrados do Antigo e Novo Testamento;

  • Nos trabalhos dos antigos padres e professores da Igreja;

  • E finalmente, no verdadeiro espírito da vida da Igreja, na preservação da fidelidade a todas as suas fundações que vem dos Santos Apóstolos.

A Tradição Apostólica que tem sido preservada e guardada pela Igreja pelo simples fato que ela tem sido mantida pela Igreja, torna-se a própria Tradição da Igreja, "pertence" a ela, e testifica sobre ela, e, em paralelo à Sagrada Escritura é chamada pela Igreja, "Sagrada Tradição."

O testemunho da Sagrada Tradição é indispensável para nossa certeza que todos os livros da Sagrada Escritura nos foram entregues vindos dos tempos Apostólicos e são de origem apostólica. A Sagrada Tradição é necessária para o correto entendimento de passagens separadas das Sagradas Escrituras, e para refutar interpretações heréticas, e, em geral, para evitar interpretações superficiais, unilaterais, e às vezes até mesmo prejudiciais e falsas.

Finalmente, a Sagrada Tradição é também necessária porque algumas verdades da fé são expressas numa forma completa e definitiva nas Escrituras, enquanto outras não estão claras e precisas e por isso precisam confirmação pela Tradição Apostólica Romana.

O Apóstolo comanda: "Então, irmãos, estais firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa."

Além de tudo isso, a Sagrada Escritura é valiosa porque dela nos vemos como a ordem completa da organização da Igreja, os cânones, os Ofícios Divinos e ritos são enraizados no modo de vida da Igreja dos tempos antigos. Assim, a preservação da "Tradição" expressa a sucessão da verdadeira essência da Igreja.

 

A Consciência Católica da Igreja

A Igreja Ortodoxa de Cristo é o Corpo de Cristo, um organismo espiritual cuja cabeça é o Cristo. Ela tem um único espírito, uma única fé comum, uma única e comum consciência católica, guiada pelo Espírito Santo; e seus raciocínios são baseados nas concretas e definidas fundações da Sagrada Escritura e da Sagrada Tradição Apostólica. Essa consciência é expressada nos Concílios Ecumênicos da Igreja. Desde uma profunda antigüidade Cristã, concílios locais de Igrejas separadas reuniam-se duas vezes por ano, de acordo com o 37º cânon dos Santos Apóstolos. Da mesma forma, freqüentemente na história da Igreja existiram concílios de bispos regionais representando uma área mais ampla do que a de Igrejas individuais e, finalmente concílios de bispos de toda a Igreja Ortodoxa tanto do Oriente quanto do Ocidente. Tais Concílios Ecumênicos a Igreja reconhece em número de sete. Os Concílios Ecumênicos também formularam numerosas leis e regras governando a vida pública e privada da Igreja Cristã, que são os chamados cânones da Igreja, e que requeriam sua observância universal e uniforme. Finalmente, os Concílios Ecumênicos confirmaram decretos dogmáticos de numerosos concílios locais e também regras dogmáticas compostas por certos padres da Igreja — por exemplo a confissão de fé de São Gregório, o Taumaturgo, Bispo de Neo-Cesareia (Para o texto das "Epístolas Canônicas" de São Gregório, ver Seven Ecumenical Councils, p. 602, Eedermans), o cânon de São Basílio, o Grande (O texto dos cânones de São Basílio é encontrado no mesmo livro de Eedermans nas p. 604-611), e assim por diante.

Quando na história da Igreja, aconteceu que concílios de bispos permitiram pontos de vistas heréticos serem expressos em seus decretos, a consciência católica da Igreja foi perturbada e não foi pacificada até que a autêntica verdade Cristã fosse restaurada e confirmada por meio de outro concílio (concílios verdadeiros — aqueles que a verdade Ortodoxa — são aceitos pela consciência católica da Igreja; concílios falsos — aqueles que ensinam heresia ou rejeitam algum aspecto da Tradição da Igreja — são rejeitados pela mesma consciência católica. A Igreja Ortodoxa é a Igreja não de concílios como tais, mas dos verdadeiros concílios, inspirados no Espírito Santo, e que se conformam com a consciência católica da Igreja). Deve-se lembrar que os concílios da Igreja fizeram seus decretos dogmáticos: a) depois de um cuidadoso, perfeito e completo exame de todas as passagens da Sagrada Escritura que tocassem em um determinado assunto, b) então verificando que a Igreja Ecumênica tivesse entendido as citadas passagens da Sagrada Escritura de modo preciso. Desse modo os decretos dos concílios concernentes à fé expressam a harmonia da Sagrada Escritura e a Tradição católica da Igreja. Por essa razão esses decretos tornaram-se, por sua vez em uma autentica, inviolável, autorizada, Ecumênica e Sagrada Tradição da Igreja, baseada em fatos da Sagrada Escritura e na Tradição Apostólica.

Certamente, muitas verdades da fé são tão imediatamente claras na Sagrada Escritura que não foram sujeitas a interpretações heréticas; por isso a respeito delas não há decretos específicos dos concílios. Outras verdades no entanto foram confirmadas por concílios.

Entre todos os decretos dogmáticos dos concílios, os próprios Concílios Ecumênicos reconhecem como primário e fundamental o Símbolo da Fé de Nicéia-Constantinopla (O "Credo" ("creio em um só Deus...) que é cantado em toda Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa e lido em diversos outros lugares nos Divinos Ofícios diários) e eles proibiram qualquer modificação que fosse, nele, por adição ou subtração (decreto do Terceiro Concílio Ecumênico, repetido pelo Quarto, Quinto, Sexto e Sétimo Concílios).

Os decretos relativos à fé que foram feitos por inúmeros concílios locais e também certas exposições de Fé pelos Santos Padres da Igreja, são reconhecidos como guias para toda a Igreja e são enumerados no segundo cânon do Sexto Concílio Ecumênico (em Trullo; O "Quinsext" Concílio em Trullo (642) foi de fato reunido onze anos depois do Sexto Concílio Ecumênico, mas seus decretos são aceitos na Igreja Ortodoxa como a continuação dos Cânones do Sexto Concílio Ecumênico. O texto desses cânones pode ser lido no Seven Ecumenical Council, p. 361, e os cânones dos concílios locais e exposições dos Santos Padres que foram aprovados nesse "cânon" estão impressos no mesmo volume p. 409-519, 584-645).

 

Dogmas e Cânones

Na terminologia eclesiástica dogmas são as verdades do ensinamento Cristão, as verdades da fé, e cânones são as prescrições: relacionadas com a Igreja, governo da Igreja, obrigações da hierarquia e do clero da Igreja e de todo o Cristão, que fluem do embasamento moral do ensinamento evangélico e Apostólico. Cânon é uma palavra grega que significa literalmente "uma vara reta, uma medida de direção precisa."

 

Os Trabalhos dos Santos Padres

Para orientação em questões de fé, para o correto entendimento da Sagrada Escritura, e de maneira a distinguir a autêntica tradição da Igreja dos falsos ensinamentos, nós apelamos para os trabalhos dos Santos Padres da Igreja, reconhecendo que a concordância unânime de todos os padres e professores da Igreja ao ensinar a fé é um indubitável sinal de verdade. Os Santos Padres permaneceram na fé, não temendo nem ameaças, nem verdades da Fé: 1) dão precisão à expressão das verdades do ensinamento Cristão e criam a unidade da linguagem dogmática; 2) acrescentam testemunhos dessas verdades com a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição e também trazem argumentos baseados na razão. Em teologia, atenção é dada também para certas opiniões particulares (em grego: theologoumenaI) dos Santos Padres ou professores da Igreja em questões que não foram precisamente definitivas e aceitas por toda a Igreja. No entanto, essas opiniões não devem ser confundidas com dogmas no sentido preciso da palavra. Existem algumas opiniões particulares de certos padres e professores que não são reconhecidas como estando de acordo com a fé católica geral na Igreja, e não são aceitas como guias da fé. (Com exemplo de tais "opiniões particulares," pode-se tomar a opinião errada de São Gregório de Nissa que o inferno não é eterno e que todos — inclusive os demônios — serão salvos no fim. Essa opinião foi rejeitada decisivamente no Quinto Concílio Ecumênico por contradizer a "consciência católica da Igreja," mas o próprio São Gregório é ainda aceito como santo e Santo Padre na Igreja Ortodoxa e seus outros ensinamentos não são questionados. Sobre a atitude Ortodoxa para com tais "opiniões particulares" erradas dos padres, e especificadamente, a respeito dos ensinamentos de Padres como São Photius, o Grande e São Marcos de Éfeso, ver o artigo "The Plave of Blessed Augustine na Igreja Ortodoxa" em The Orthodox Word, 1978, nºs. 79 e 80, é impresso também como um livrete separado, São Herman do Alasca Brotherhood, 1983).

 

As Verdades da Fé Nos Ofícios Divinos

A consciência Católica da Igreja, quando ela se preocupa com o ensinamento da fé, também é expressa nos Divinos Ofícios Ortodoxos que nos foram passados pela Igreja Ecumênica. Entrando-se profundamente no conteúdo dos livros dos Divinos Ofícios nós nos tornamos mais firmes no ensinamento dogmáticos da Igreja Ortodoxa. (Deve-se notar que os compositores e compiladores dos Ofícios Divinos foram freqüentemente grandes teólogos. Por exemplo, o Octoechos ou livro dos ofícios diários nos Oito Tons, é essencialmente obra de São João de Damasceno, o Santo Padre do 8º século que reuniu a teologia Ortodoxa da grande era patrística).

 

 

 

 

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